Recife,
26 de novembro de 2011
COLCHA DE RETALHOS 2
Para dizer algumas
palavras a Jônatas, às vésperas de nosso casamento, resolvi costurar novos
apetrechos em uma “colcha de retalhos” que eu havia feito para comemorar nosso
primeiro mês de namoro.
Tal bordado não era
desses de tecido, posto que não sei lidar com panos, máquinas e agulhas: tentei
ser artesã com as palavras. Desse modo, fui costurando reflexões com trechos de
música-poesia (especialmente algumas cantadas/tocadas por uma musicista[1]
que, num mágico momento naquela barroca igrejinha de Olinda[2],
preencheu nossos sentidos com a beleza de um instrumento tido como angelical: a
harpa). Assim, visando contar um pouco de nossa história, costurei essa colcha
de retalhos escrita.
.....................
Querido, começo
dizendo que, apesar de não saber, “vivia
a te buscar, porque pensando em ti corria contra o tempo”[3].
Caminhava guiada por uma “utopia”. Procurava companheirismo e ternura.
Imensidão e intensidade na entrega. Abraço de alma, que envolve e acolhe.
Desejo de doação. De troca. De palavras que “fazem amor”.
“Subia
a montanha, não como anda um corpo, mas um sentimento”[4].
Nessa escalada, cheguei a pensar que a intensidade do amor era sonho, algo
etéreo pelo qual se anela, porém que se dissolve ao toque ou, qual arco-íris,
quando parece estar perto, distancia-se, num processo infindo...
Abrindo trilhas,
desbravando terras (des)conhecidas, eu avançava. Após longo percurso, mudança de rota. Nesse momento, “como a surpreender o sol antes do sol raiar,
ingressaste pela porta de trás da casa vazia, chegando mil dias antes de eu te
conhecer”[5].
Impactada com tua
chegada, me indaguei: quem és tu? De que mundo saístes? Sorriso me vem aos
lábios ao imaginar-te fugitivo de um livro. Não de qualquer livro, obviamente,
mas desses que trazem vida em suas páginas. Dos que falam de amores, de
amanhecer, de crepúsculo, de filosofia, teologia e memória. Dos que tocam nosso
íntimo.
Vejo a cena: algum
escritor desse tipo, desavisado, ao lidar com seus personagens, não percebeu
que um deles, contrariando qualquer expectativa, adquiriu vida e lhe escapou.
Trazendo uma troxinha nas costas, qual retirante, saltou das páginas e fugiu.
Ficou a vagar pelas
estradas de nosso mundo, até resolver se instalar numa curva do caminho. Fez
seu lar em uma caverna: “funda. Repleta de objetos significativos, livros. Sob
um abajur suave, o fundo musical, inspirador, convidava à reflexão. Não
obstante, o cheiro era de solidão e as teias de aranha, em profusão, expressavam
abandono. A lareira, quase apagada, prenunciava a ausência do compartilhar”[6]... Desapontado com o mundo real, o
ex-personagem literário se fechava cada vez mais e escolhia o caminho da
solidão.
Não obstante, decidiu
compartilhar sua caverninha. Comigo, outra cavernícola. Lentamente foi mostrando a bagagem que trouxera de outras paragens: palavras e melodia. E,
assim, poesia e música, amizade e afeto espalharam-se e soldaram nossos
encontros.
Saudades. Muita
saudade. Indagações emergiram. Dúvidas. “Questionamentos sobre a natureza do
relacionamento. Do amor. Equívocos analíticos? Por que aquilo que os unia não
seria apenas o amor fraterno, ágape? Clareza da unicidade do encontro. Da
necessidade de aprofundar laços. Do explorar mais intensamente a caverna. Do
amor e do apoio da amizade”[7].
Contudo, num instante
translúcido, afirmação de um compromisso. “Então
tu me chegaste, sem me dizer que vinhas”[8].
E aconteceu um beijo. Primeiro através de dedos que se entrelaçaram. “E tuas mãos foram minhas com calma”[9].
Em seguida os lábios se tocaram, numa explosão de musicalidade e encontro
de corpos e almas. “Porque foste em
minh’alma como um amanhecer. Porque foste o que tinhas que ser”[10].
Senti-me como o poeta:
“pela janela da minha alma, escorre o
ser. (...). Mas a dúvida do novo amor amanheceu meu olhar para a busca
incansável da esperança. Onde está o começo? Onde está o fim? O Instante etéreo
me visita. E desperta o sonho imutável. Ontem vivi, hoje procuro. A lua
dissolve o som da dor. Simples e branca. Eternamente”[11].
Caminhamos então para o (re)direcionamento de um encontro que se configurava como “afinação de vozes
no coro da vida”[12],
qual “melodia bela, tocante, anunciando afeto e indicando saudades do que (não)
foi”[13].
Apesar do “risco de
ouvir a beleza e o equilíbrio se esvaírem”[14],
o novo caminho vem se mostrando como uma (nova) canção que, em lugar de
retirar-lhe a harmonia, indica “a profundidade enquanto possibilidade” de
concretização daquele desejo imutável.
Como resultado de
construções da mais elaborada engenharia, a utopia vem se materializando. Em nosso
amor.
Hoje sei que “eu preciso de alguém assim como você, alguém
que me olhe desse jeito, desses que ficam juntos num dia frio[15]”,
porque “achei meu coração na palma da tua
mão[16]”.
Além disso, dorminhoca que sou, “quando
estou nos braços teus sinto o mundo bocejar. Quando estás nos braços meus sinto
a vida descansar. No calor do teu carinho, sou menina-passarinho com vontade de
voar”[17].
Tais constatações me
fazem ter desejos. Antigos e novos, que se entrelaçam na imagem de uma “casa de janelas azuis, onde algum menino
fazendo gaivota entregue ao vento a nossa história... Como nos amamos, tivemos
filhos, e não fizemos nada grandioso a não ser manter nosso amor doce
silencioso... Para que ao desfazer as dobras do pequeno brinquedo alguém encontre
esperança de ser simplesmente feliz”[18].
Dando os últimos
pontos nessa colcha de retalhos, quero que você “leve este beijo sem sabor de despedida. Molhe ele no doce de maracujá.
Ferve ele no leite até evaporar. Que ele dance no seu corpo entre a lágrima e o
sorriso. Enrola na farinha até ele crocar. Passa na manteiga até ele dourar.
Este beijo leve voe, voe até a sua boca[19]”
e tinja nossos dias de mais cor, sabor, som, toque, amizade, amor.
....................................
Este era o ponto no
qual o bordado encerrava. Agora acrescento um pedacinho de tecido, continuando
os pontos e o desenho anterior.
Distintamente de todas
as expectativas (minhas, inclusive, no início do namoro), qual “Eduardo e Mônica”[20], nossa história se consolidou: amadurecemos,
aprendemos a aceitar melhor ao outr@, estudamos juntos, cozinhamos juntos, lemos
juntos, oramos e meditamos juntos, enfim, aprofundamos o compartilhar de nossas vidas.
Posso dizer que você é o
“amor de minhas preces” [21]. Por isso, “quero casar com você. Juntar seu “tic tac” ao meu. Pra
todo dia dormir e acordar ao lado seu”[22]. O sonho da “casinha” (apê) de “janelas azuis” (ou de vidro
transparente, rsrsrsrs) e “o kit romance”[23]
(filhos, família, amigos, viagens,
trabalho, sossego, aconchego, coragem, fidelidade e fé) estão se
materializando.
Como último arremate nesse “tecido” escrito, desejo expressar que “quero a vida sempre
assim: com você perto de mim, até o apagar da velha chama”[24].
Te amo.
Kathleen Vasconcelos
[1] Cristina Braga.
[2] Mostra
Internacional de Música de Olinda/2010.
[3] Valsa Brasileira - Chico
Buarque.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] Cavernícolas –
Kathleen Vasconcelos
[7] Idem.
[8] O que tinha que ser
- Vinícius de Morais e Tom Jobim.
[9] Idem.
[10] Idem.
[11]Sentir é ultrapassar
– Cristina Braga e Maria Teresa Moreira.
[12] Sobre melodia e
amizade - Kathleen Vasconcelos
[13] Idem.
[14] Idem.
[15] Peixe – Luís
Capucho.
[16] Palma da mão -
Cristina Braga.
[17] Prelúdio para ninar
gente grande – Luiz Vieira.
[18] Cem anos – Cristina
Braga e Ricardo Medeiros.
[19] O beijo – Cristina Braga, Maria Teresa
Moreira e Ricardo Medeiros.
[22] Idem.
[24] Corcovado – Tom
Jobim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário