Garanhuns, 29 de novembro de 2011
Encontros
Meu amor,
Estou com
extrema dificuldade de escrever este texto. Não sei se pelo fato da
responsabilidade em dedicar algo de maior quilate a você às vésperas do
casamento, ou por tentar responder à altura a poesia que você me deu nestes
dias, ou mesmo por, sei lá, não conceber, por ora, em palavras, aquilo que a
minha mente deseja te falar. Você não faz ideia da
imensidão, dos muitos rios que desembocam nesse mar[i].
Me revirei nas minhas mais doces
lembranças, dignas de uma poesia Adeliana,
em cujos flashs você se encontra.
Revirei meu álbum de fotos, as
cartas que você me deu, as fotos juntos, as músicas que nos identificam e até
os trechos de livros que li para você ou que lemos juntos, mas não encontrei
nada que me pudesse fazer refletir em palavras a tamanha alegria das vésperas
de ter você não por mais um dia somente, mas por toda a vida.
Tentei escrever sobre flores, te
comparar às orquídeas, tulipas, mas o texto não ficou tão belo quanto a sua voz
ao me falar de girassóis. Tentei falar de outras flores, como a flor da pele,
de sua delicadeza, mas não ficou comovente quanto seu sorriso ao ouvir o poema
“flor da pele”, do Oswaldo (Montenegro). Eu até tentei resgatar nossas
lembranças em Drummond, Pessoa, Nietzsche, mas essas são individuais demais e
refletem mais meus desassossegos e Zaratustras do que o nosso amor tão ávido e
delicado.
Até que aquele surto poético me
veio à lembrança. Sim, o surto que nos levou ao Rubem e sua Babette e à Adélia
com seus lindos prantos e percepções do amor.
Numa surpresa, vi nosso retrato em
uma antologia e comecei a voltar no tempo de nossa adulta infância, quando nos
descobrimos amando um ao outr@, sem como ou porquês.
Os
diamantes são indestrutíveis?
Mais é o meu amor.
Mais é o meu amor.
O mar é
imenso?
Meu amor é maior.
Meu amor é maior.
Mais belo e
sem ornamentos
do que um campo de flores.
do que um campo de flores.
Mais triste
do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem
sabe que ama [ii].
E foi assim que tudo começou, numa
noite onde as nossas mãos se tocaram como nosso primeiro beijo, ao som do
silêncio e, quando ao som de lábios que se tocavam, no início de tudo, ouvíamos
sinos natalinos e orquestras barrocas. Minha
razão sucumbiu ao teu olhar, à tua voz, meu coração sorriu[iii]...
E o tempo foi passando. A lembrança
das mãos sempre vívidas ao tocar as dela, trocando o entrelaçar comum dos
enamorados pelo simples toque. Manifestação diferente e alheia a todos os
outros, de extremo significado para nós.
Poderíamos estar em lugares
diferentes, ao mesmo tempo em que olhava eu para minhas mãos, lembrava da
maravilhosa noite em que secretamente, sem serem os nossos lábios
tocados, selamos o compromisso de toda uma vida; compromisso esse que você
tinha medo que não houvesse ou que fosse momentâneo.
E o tempo mostrou que não, para a
incredulidade de muitos e alegria de tantos outros que estavam conosco em nossa
jornada, às vezes dura, às vezes doce. Como diria o poético eu de Adélia ao seu
Jonathan:
Um corpo
quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan
falando:
“parece que estou num filme.”.
“parece que estou num filme.”.
Se eu lhe
dissesse “você é estupido”
ele diria “sou mesmo”.
ele diria “sou mesmo”.
Se ele
dissesse “vamos comigo ao inferno passear”
eu iria.
eu iria.
As casas
baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde sobre a nossa fragilidade.
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde sobre a nossa fragilidade.
Vinha com
Jonathan pela rua mais torta da cidade.
O caminho
do Céu[iv].
E nesse caminho do céu, nos
encontramos, fizemos as pazes, fizemos planos para esse momento de unir as
vidas e sermos um; sem rodeios, sem avalistas, sem caminhos pré-moldados, a não
ser aqueles que o nosso amor e nossa imaginação criassem.
Nada plenamente perfeito, tal como
nós; mas perfeito em sua plenitude, como deveria ser.
E vieram aniversários, velas que se
apagavam e acendiam e que eu te convencia a deixar acesas no bolo, risos e
prantos, até que olhamos um para o outr@ e concordamos no olhar: você quer
casar comigo? Nossos corações já não cabiam em nós de tanta felicidade! Nada no
mundo parecia mais belo do que aquele dia em que dissemos “sim” um para o outro
e nossos planos começavam a sair do papel.
Aquarelas, pastéis, verdes-oliva e
amarelos-girassol. A rua mais torta da cidade se tornava o caminho do céu, de
fato, e sem que percebêssemos, os céus se revelavam cada vez mais ao nosso
favor, ao nosso encontro, às nossas distâncias, aos nossos beijos, cada vez
mais cheios de sinos e orquestras, que agora tocavam Liszt, Chopin, Brahms...
A
felicidade é uma porta que sempre se abre pra fora;
quem forçá-la para dentro ordena que o amor vá embora...
(Sørën Kiëkergaard)
quem forçá-la para dentro ordena que o amor vá embora...
(Sørën Kiëkergaard)
Aprendemos a orar juntos o
Saltério, enquanto o líamos; aprendemos a refletir teologicamente juntos as
nossas questões pessoais e, muitas vezes, chegamos tanto a dissensos e a
consensos.
Ouvimos harpa e guitarra em nossa
homenagem na igrejinha de Olinda quando nem sabíamos que viríamos a ser;
ouvimos choros tristes e amargurados de um sax que nos tocava a alma e de um
acordeom transcrito em lágrimas, nossas e dos músicos; um jazz marcado e
improvisado para nossa alegria...
Descobrimos sabores e danças cotidianas
contidas um no outro; vimos sóis e luas juntos; alvorecer e entardecer em leves
e alegres tons, ainda que alguma tristeza estivesse a dominar nossos corações.
Nem tudo é perfeito.
A
felicidade é uma porta, e abrí-la é escolha sua (nossa);
quem se fecha não se arrisca, mas a alegria está na rua...
(Jorge Camargo)
quem se fecha não se arrisca, mas a alegria está na rua...
(Jorge Camargo)
“Desfiz (meus) 75 anos”[v]
enquanto ela estava amadurecendo e descobrimos juntos “a dor e a delícia de
sermos o que somos”[vi]. Fomos ensinados a buscar
o que fosse além das virtudes, do “bem e do mal”[vii],
experimentamos os delírios “erótico-heréticos”[viii]
de uma santa teologia e aprendemos a “retornar eternamente”[ix]
um ao outro.
Contrariamos as opiniões e os
desejos de pessoas que respondiam a nós que “nem tudo são flores, só é bonito
no início”, quando dizíamos “estou vivendo um grande amor”; ainda duvido que
quem afirmava isso com desdém tenha experimentado esse amor que vence
dificuldades, contratempos, diferenças e se estabelece como único.
Diariamente, debaixo do sol[x],
encontramos algum sentido na vida e, sem medo de sermos felizes, aceitamos
caminhar juntos e de mãos dadas, querendo e desejando a vida sempre assim, com você perto
de mim, até o apagar da velha chama[xi].
Você sabe o
quanto eu(te) amo
do mais fundo do meu peito,
com o que há de mais sagrado
até onde eu posso ver.
do mais fundo do meu peito,
com o que há de mais sagrado
até onde eu posso ver.
Sabe as
lutas do meu tempo,
das ciladas do destino,
do meu coração sedento,
por saber, por conhecer
Do amor mais verdadeiro,
Com que quero amar pra sempre;
das ciladas do destino,
do meu coração sedento,
por saber, por conhecer
Do amor mais verdadeiro,
Com que quero amar pra sempre;
Sabe,
enfim, todas as coisas,
Sabe como eu quero ter
Do amor mais verdadeiro
Com que quero amar pra sempre
Sabe como eu quero ter
Do amor mais verdadeiro
Com que quero amar pra sempre
Sabe,
enfim, todas as coisas
Sabe o quanto eu quero ser...
Sabe o quanto eu quero ser...
(Jorge
Camargo)
Me resta dizer que com você eu
quero dançar a valsa eterna do tempo, onde o som reverbera e corre pelo salão
em busca de nós, unidos pelos pés, ligados pelas mãos e selados no coração[xii].
Com você quero curtir aquele kit romance[xiii],
presente de Deus para nós, e sentir as suas mãos sobre a pele enrugada do meu
rosto no decorrer dos anos;
com você quero dividir as minhas
ternas ou atormentadas manhãs de segunda-feira, minhas virtudes e minhas
fraquezas; minha gentileza e minha “doçura”, sabendo que sempre eu mesmo serei
aceito aos teus alvos (a)braços e no fim da tarde agradecer por você estar
comigo;
é com você que desejo estar nos
últimos dias da minha vida, quando o sol se esconder e a noite vier; quero
estar com você pra sempre na manhã que se segue a noite escura da alma onde nem
vida e nem morte poderá nos separar. É do seu lado que eu desejo estar, afinal, eu que era triste, descrente
desse mundo, ao encontrar você eu conheci o que é felicidade, meu amor[xiv].
Atenciosa e
amorosamente seu,
Jônatas
Souza
[i] Imensidão - Jorge Camargo e Gladir
Cabral
[ii] Pranto Para Comover Jonathan - Adélia
Prado
[iii] O sol se esqueceu – Gladir Cabral
[iv] Pranto Para Comover Jonathan - Adélia
Prado
[v] Alusão ao livro de Rubem Alves com o
mesmo título.
[vi] Dom de iludir - Caetano Veloso.
[vii] Alusão ao livro “Além do bem e do mal”,
de Nietzsche
[viii] Alusão ao livro “Variações sobre a vida
e a morte ou o feitiço erótico-herético da teologia”, do autor acima
mencionado.
[ix] Alusão ao livro “(E)terno retorno”, de
Rubem Alves.
[x] Livro de Eclesiastes.
[xi] Corcovado – Tom Jobim e João Gilberto.
[xii] Valsa alegre – Gladir Cabral
[xiv] Corcovado – Tom Jobim e João Gilberto.
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